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Construcción

En estos tiempos idos de supuestas vacas gordas alimentadas con dieta de ladrillo se ha hablado bien poco de la matanza cotidiana de los accidentes de trabajo. Se ve que no tiene glamour el tema. Bien, fíjense lo que un poeta puede hacer con un accidente de trabajo en una obra. Chico Buarque de Hollanda:

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

OK, está en portugués, pero eso a los habitantes del espacio LATOC no nos debería impedir disfrutar del poema en su lengua orginal, pero si alguien quiere una traducción, aquí la tiene.

«Construcción» recibió 2 desde que se publicó el 7 Abril, 2009 dentro de la serie «» . Si te ha gustado este post quizá te gusten otros posts escritos por Daniel Bellón.

Comentarios recibidos en este post y unidos a la discusión global de todos a través de la Matriz, nuestro espacio conversacional.

  1. DFM dice:

    Ese Daniel! Curiosamente esta entrada (o varias de ellas) es la que más hace que la gente se pase por el Cuaderno. Todos los días hay una búsqueda de la letra de la canción, de la canción en sí misma o algo relacionado con Construcción. Recomiendo desde aquí la gran versión que Daniel Viglietti hizo en su disco Trópicos. La traducción es de él.
    Salud y besos Daniel!!

  2. Hola David, alegra sentirle por aquí. En su día, allá por los 70 del siglo pasado, Galeano dijo que Buarque era el mejor poeta brasileño del momento, y que no se le consideraba demasiado porque cantaba. Después si ha ido recibiendo el reconocimiento que merece. Para mí construcci´ñon es un ejemplo de lo que pueden hacer la “gafas de poeta”, que decían David Eloy, José maría y Miguel Angel en un taller de poesía para niños que montaron en medio de la plaza del Adelantado en La Laguna. Con esas gafas, debidamente ajustadas, se ve el más allá de las cosas…

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